Professores e alunos divergem sobre cotas raciais nas universidades; Reitor da UEL vê racismo estrutural no Brasil
EDUCAÇÃO
O tema é velho, mas nunca sai de moda: cotas raciais nas universidades públicas. Há argumentos prós e contras para essa política, que divide alunos e professores.
Na Unopar, o estudante Matheus Henrique entrevistando o professor Guilherme Lima - Foto: João Henrique Maia
Na Unopar, o estudante Matheus Henrique entrevistando o professor Guilherme Lima - Foto: João Henrique Maia
O sistema de cotas raciais foi
criado nos Estados Unidos em 1960 com objetivo de diminuir as desigualdades
sociais entre negros e brancos, e o Brasil começou a adotar essa política a
partir dos anos 2000 e, hoje, é uma realidade no país inteiro.
A Universidade de Brasília
(UnB) foi a primeira a adotar cotas raciais no Brasil, em 2004. Até que em 2012, o Governo Federal criou o
sistema de cotas, que contempla estudantes de escolas públicas, de baixa renda,
negros, pardos, indígenas e pessoas com deficiência (PCD).
Como funciona as cotas raciais?
As cotas raciais são uma parcela de vagas destinadas nas
universidades para pessoas negras (pretos ou pardos), que estudaram em
escolas públicas. E essa política vem surtindo efeito com o intuito de
diminuir as desigualdades sociais e econômicas, além oferecer mais
oportunidades aos negros, que foram escravizados no Brasil durante 300
anos - de 1550 até 1888.
Segundo pesquisa publicada na última quarta-feira (13) pelo IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pela primeira vez na
história o número de estudantes negros e pardos em relação aos brancos foi
maior nas universidades públicas do Brasil, representando 50.3%.
Guilherme Lima,
professor dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Unopar
(Universidade do Norte do Paraná), é favorável ao sistema de cotas raciais e vê
como decisiva essa política pública para inserção dos negros nas faculdades.
“Penso que sim (sobre ser decisiva as cotas raciais para mais
negros nas universidades), porque antes das cotas o acesso do negro na
universidade era muito restrito e é uma questão muito complexa. Infelizmente, a
população negra comprovadamente tem menor poder aquisitivo, e por ter menor poder
aquisitivo, já na formação eles estudavam em escolas públicas e muitas vezes as
crianças e adolescentes tinham que ajudar nos afazeres de casa, em serviços,
para poder sobreviver. Então eles tinham todo um histórico escolar
comprometido, por isso era difícil o acesso deles nas universidades”, explicou.
“As ações afirmativas de cotas eu
sou a favor, elas são inclusivas, importantes, porque elas exatamente
abrem espaço para que independente se ele não tem uma condição financeira, seja
para uma universidade particular ou para uma universidade pública, ele tenha
minimamente o acesso. Porque são coisas diferentes: o acesso à universidade é
uma coisa, e a permanência dele vai depender do desempenho escolar do aluno. E
eu fico muito feliz quando vejo que o negro consegue entrar na universidade,
acompanhar o curso e se formar. Isso prova que ele tinha condição total de
estar cursando e se formar, o que ele tinha dificuldade era o acesso por esses
fatores sociais e econômicos”, disse.
Segundo o professor Guilherme Lima, facilitar o acesso do
negro nas universidades é uma justiça social:
“As cotas são necessárias,
fundamentais e quando é facilitado o acesso, eu penso que você faz uma justiça
social, que o Brasil tem uma dívida com o povo negro. Eles não vieram no Brasil
como imigrante italiano, alemão ou português… O negro foi trazido forçado, ele
foi pego no país dele, enfiado em um navio negreiro e trazido para cá. E quando
foi abolido a escravidão, não teve ajuda e foi para onde? Para as favelas”, concluiu.
“Não acho justo. É
válido e é positivo o que temos hoje, mas sou adepta ao aumento da porcentagem
para utilização de cotas. Atualmente 50% das vagas ofertadas pelos cursos em
determinadas universidades são destinadas ao sistema universal, enquanto os
outros 50% às cotas, que se dividem em racial, social, para pessoas portadoras
de alguma deficiência e por aí vai dependendo da faculdade. Nós precisamos
igualar o ambiente universitário. A gente precisa encontrar médicos, advogados,
juízes, professores, engenheiros, arquitetos, cantores, atores, fotógrafos,
empresários, profissionais em geral negros. É feio e é vergonhoso a reação de
muitos quando encontram profissionais negros fora do ambiente em que durante muitos
anos perpetuou-se ser ali o "lugar deles" (funcionária doméstica,
garçonete, babá, segurança, motorista...) ; sem contar o pensamento medonho de
"esse deu sorte na vida" quando vê um negro bem-sucedido. Todos nós
deveríamos ter o direito de viver a vida, e não somente esperar por essa dita
"sorte". Pare para analisar o seu redor e veja quantos negros você
encontra por dia e o que eles estão fazendo. O preconceito precisa acabar.
Posso te afirmar o quanto o preconceito destrói o emocional e o físico. Ter que
lidar com pessoas ruins não é simples”, disse.
ARGUMENTOS CONTRA
COTAS RACIAIS
Álvaro Emídio Filho, professor dos cursos de Jornalismo e
Publicidade e Propaganda na Unopar (Universidade do
Norte do Paraná), é um defensor das cotas por questões econômicas, não
por etnia.
“Eu, em tese, sou contrário as cotas por
etnia, sou mais favorável por questões econômicas, até porque você abrange a
todas etnias. Seria mais interessante trabalhar nesse formato por índices
econômicos”, explicou.
"O fato de você ter o negro na universidade não quer dizer que ele vai ter um aproveitamento bom, o que faz ele ter um bom é ele ter boas aprovações, não ele ter entrado em uma porta diferente, que seria a porta das cotas. Essa questão é muito complexa. Acho importante ampliar oportunidades, não só para negros, mas para alunos das escolas públicas, mas isso não pode estar sendo feito sem uma postura estratégica anterior de fortalecer o ensino básico do Brasil", completou Álvaro.
Marcela, estudante de jornalismo, é contrária as cotas raciais. Negra, ela recusou o benefício das cotas quando prestou vestibular para UEL, em 2017.
"O fato de você ter o negro na universidade não quer dizer que ele vai ter um aproveitamento bom, o que faz ele ter um bom é ele ter boas aprovações, não ele ter entrado em uma porta diferente, que seria a porta das cotas. Essa questão é muito complexa. Acho importante ampliar oportunidades, não só para negros, mas para alunos das escolas públicas, mas isso não pode estar sendo feito sem uma postura estratégica anterior de fortalecer o ensino básico do Brasil", completou Álvaro.
Marcela, estudante de jornalismo, é contrária as cotas raciais. Negra, ela recusou o benefício das cotas quando prestou vestibular para UEL, em 2017.
“Eu acho assim: a vida inteira estudei em
colégio particular, nunca passei necessidade nenhuma, e na minha cabeça cotas
raciais é para quem não tem condição, e sempre tive condição. Eu não acho
justo. Cotas é para aquela pessoa pobre, miserável, que não teve acesso ao um
bom estudo. E todo mundo fala de colégio estadual, mas tem educação, eu conheço
várias pessoas de colégio estadual que passaram sem cotas e negras. Eu acho um
preconceito por parte do Estado as cotas, tinha que ter cotas para quem não tem
condição”, salientou.
Foto:
João Henrique Maia – Entrevista na Unopar com o professor Álvaro
A palavra do Reitor da UEL
Sérgio Carvalho,
reitor da UEL, destacou a importância das cotas e considera essa política
pública um sucesso na Universidade Estadual de Londrina.
“Eu tenho a experiência da discussão
de cotas raciais na UEL (Universidade Estadual de Londrina), nas outras
universidades eu obtenho as informações por matérias jornalísticas ou por
trabalhos científicos. Na Universidade de Londrina, implantamos há 15 anos e é
uma política pública que é utilizada como uma forma de você criar
oportunidades para uma parcela importante da população brasileira, que são os
descendentes de africanos, escravos, que vieram para o Brasil. É uma
política bem-sucedida, nós mudamos o perfil étnico e racial de nossa
instituição”, destacou.
O reitor da UEL não estipula um prazo para o término das cotas
raciais e vê um racismo estrutural na sociedade brasileira:
“Não temos estimativa, nossas cotas
foram renovadas por 20 anos. Agora, é uma opinião minha, enquanto tiver um
menino ou uma menina negra neste país, que escolheu entrar na universidade, mas
se existir algum fator de estrutura social impossibilitando essa entrada, tem
que ter cotas. Pois tem um racismo estrutural colocada na estrutura da
sociedade brasileira que ela não é vista, mas ela é bem presente, e as cotas
tem a função de forçar para que não tenhamos esse racismo estrutural”, finalizou Sérgio Carvalho.



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